Artigo: A Arte na política

Os embates políticos que os tocantinenses têm enfrentado ultimamente não fogem muito da própria crise do sistema político brasileiro. Um indicador claro dessa crise é a falta de credibilidade da classe dos políticos na sociedade".

Pejman Samoori

[*] Membro da Comunidade Bahá’í, uma das 43 entidades que compõem o Comitê Nacional do MCCE, docente universitário, doutorando em Educação pela UnB e consultor do Fórum Nacional de Educação em Direitos Humanos. Contato: psamoori@yahoo.com
 
Diferente de todo o espírito de esperança que permeou os cenários políticos anteriores do início da década de 90, como “Diretas Já!”, hoje, a palavra política gera imagens de desconfiança, corrupção e relações de poder. Obviamente que é equivocada a postura de generalização e não se pode negar a competência e a dedicação de alguns dos nossos representantes que têm respondido inequivocamente às demandas e necessidades do povo. Porém, o trabalho de tais políticos é ofuscado pelos constantes escândalos nas instâncias legislativas, executivas e judiciárias do país.

Como esperar lealdade e confiança do nosso povo quando os líderes que nos representam demonstram maior preocupação com os interesses pessoais de acumulação de riquezas do que com o bem-estar e o progresso da coletividade?

Isso não implica negar o grande passo que demos na direção da democracia, mas de reconhecer que a governança democrática exige diversas qualidades e capacidades de seus membros, tanto dos eleitores como dos candidatos.

Se a política é  uma arte - a arte de governar - então ela requer amor, disciplina, sensibilidade e paciência.

Assim como não basta ter um instrumento para ser um verdadeiro músico, não basta apenas ser eleito para ser um verdadeiro político.

A democracia exige mais que simples estrutura e cargos. A estrutura é o primeiro passo, que permitiu o estabelecimento de um sistema político com dirigentes eleitos pelo povo. Mas a democracia deve avançar a outro nível agora, principalmente no âmbito das capacidades, atitudes e qualidades dos governantes.

Se os nossos representantes não estiverem imbuídos de novas capacidades e qualidades, a atual proposta de democracia é insustentável. Se somos o que pensamos, então necessitamos de outros pensamentos para mudar a realidade.

Apesar da questão do racismo ser algo abominável na visão coletiva da maioria das pessoas hoje, a vergonha do Apartheid existia publicamente há algumas décadas atrás. Apesar dos preconceitos de gênero serem inaceitáveis no mundo atual, alguns países da Europa não aceitavam o voto feminino até a década de 70. Tais mudanças são reais e ocorreram em um curto prazo de tempo.

Talvez pareça utópico, mas da mesma forma que o homem foi capaz de evoluções tão significativas na forma de pensar nas últimas décadas, acredito que ele será  capaz de eleger governantes livres das máculas da corrupção e distinguidos pelas suas qualidades de magnanimidade, integridade e pureza de intenção. Talvez nisso é que esteja a arte na política.

Fonte: Publicado em 27 de outubro de 2009 no site Atitude Tocantins, de Gurupi/TO.